terça-feira, 21 de abril de 2015

Por que nos EUA a vida é mais fácil do que no Brasil?

Pessoal, achei um vídeo excelente e até clássico com a comparação direta do custo de cesta básica brasileira em comparação ao salário mínimo no Brasil e EUA. Claro que a comparação direta tem inúmeros equívocos, mas tomamos o vídeo na forma como ele se propõe, ou seja, na comparação direta que ele propõe de que, à época, a cesta básica do Dieese no Brasil valia 350 reais para um salário mínimo de 622 reais e a mesma cesta básica nos EUA valia 125 dólares para 1400 dólares de salário mínimo em média nos EUA. Conclusão do repórter brasileiro, morador dos EUA e preocupado com o nosso nível de vida: "viver nos EUA é mais fácil do que viver no Brasil". E ele pergunta: "Por que isso, gente? Tem alguma coisa errada. Não me digam que não tem algo errado aí, no Brasil. E o que é?" (citação livre minha para as palavras do nosso amigo brasileiro morador dos EUA).

O tema é excelente. Excelente mesmo. Esse rapaz deu um gancho fantástico para a análise que faremos abaixo e que é meramente a resposta que demos a ele em comentário a seu vídeo.

Primeiro, acessem o vídeo que critico ou, na verdade, comento em https://www.youtube.com/watch?v=ouMKPzJpncQ

Veja agora minha resposta:

"Primeiramente, parabenizo o rapaz pela preocupação com o Brasil, nosso país. A comparação direta entre o custo da mesma cesta básica no Brasil e nos EUA dessa forma direta com o salário mínimo norte-americano não deixa de ser interessante, claro. E tudo o que induz a criticarmos a realidade brasileira e como podemos fazer para melhorá-la é, a meu ver, bom para o País. Mas há somente um pequeno grande equívoco que todas essas comparações imediatas não consideram: as causas da formação da diferença, as quais têm questões imediatas e mediatas ou históricas e geo-políticas. Aí o grande erro. Mas vamos aproveitar o que o vídeo traz de bom.

Observem. De forma imediata podemos dizer que a lata de guaraná que foi para os EUA foi com grande desconto por compra gigante de grandes redes americanas de supermercados, mais eventual desconto em taxas de exportação para incentivo da exportação brasileira, menos a incidência de tributação brasileira e incidente a muito menor tributação de consumo americana. Isso mostra que devemos fazer uma reforma tributária. Conclusão boa. Mas o leite americano está a metade do preço que deveria estar, pois nos EUA há grande subsídio do leite; subsídios esses que já foram condenados pela OMC em favor do Brasil, por exemplo, e que deturpam a inflação e o peso da compra no bolso do americano. No Brasil o preço do leite é verdadeiro. A comparação fica pior, mas vale pergunta: em que medida vale a pena subsidiar preços na economia nacional? Qual o custo disso para o Erário americano e qual a vantagem para o povo americano em bem-estar e autonomia produtiva de uma cadeia industrial de alimentos para americanos? Isso seria aplicável e favorável a algo no Brasil, como ocorreu com a gasolina? Boas perguntas.. Não dei respostas.

De forma indireta, mediata e histórica, devemos considerar que os EUA têm um pib de 16 trilhões de dólares e uma renda média de 58 mil dólares, o que os habilita a ter um salário mínimo médio de 1.400 dólares como disse o nosso amigo do vídeo. O Brasil tem pib de 2,5 trilhões de dólares, renda média de 13 mil dólares e, razoável para nossa economia, salário mínimo de 622 reais, á época do vídeo. Hoje, em abril de 2015 já está em 770 reais. É diferente, pois o custo da produção da comida não é tão diferente nos EUA e no Brasil e o preço de commodities agrícolas também é internacionalizado, mas a tributação é e o custo de logística do Brasil também é pior, pois ainda temos uma economia menos eficiente e menos rica que a dos EUA. Mas veja que o preço final da cesta em valor de moeda é semelhante para a época da pesquisa: 360 reais no Brasil e 125 dólares nos EUA, ou 250 reais no Brasil, mais ou menos. Voltamos à questão da reforma tributária e de exigência de brasileiros por melhorias na logística de nossa produção. Isso melhoraria a correlação de preço direto entre cesta básica e salário mínimo brasileiro.

Mas o repórter não notou que ter política de valorização de salário mínimo também diminui essa correlação e em 2002 o salário mínimo brasileiro era 60 dólares e hoje são de 300 dólares. E isso sem desestabilizar a economia, pelo contrário, aumentando-a. Então, vemos que ter política para aumentar o salário mínimo é outra medida importante para colocar o Brasil em situação mais semelhante aos EUA no quesito de proporção cesta básica em relação ao salário mínimo.

Por fim, a situação americana é diferente da do Brasil por razões também históricas e geo-políticas. A economia americana cresceu especialmente durante as duas guerras mundiais pois era fornecedor direto dos europeus em guerra. O parque industrial dos EUA cresceu exponencialmente e o investimento em sua economia por europeus também, já que não podiam investir e produzir na Europa em guerra. Nós no Brasil não tivemos essa alavanca econômica de base histórica e geopolítica. E depois da guerra ficou selada uma aliança geopolítica e econômica entre Europa-EUA-Japão, criando um cinturão de riqueza em que há grande liberdade de fluxo de capitais entre eles, gerando grande oferta de capital em suas economias, baixando o custo do capital, daí taxas de financiamento bancário muito mais baixas do que as praticadas no Brasil, facilitando compra de casa própria, carros e tal.

Durante décadas após a guerra, o FMI e Banco Mundial, que foram criados sob o pretexto de ajudar o avanço da modernidade e das economias no Globo, na verdade foram grandes instrumentos de exportação de serviços, bens e indústrias européias, americanas e japonesas e essa expansão comercial e econômica, mesmo que acabando com as indústrias incipientes locais dos países pobres e médios por onde chegou, angariou muita renda para estes países trilaterais, mais uma vez, aumentando a riqueza de suas nações, a oferta de capital em suas sociedade, e mantendo, portanto, baixos juros para empréstimos, alto pib e alta renda per capita. Diferente com o que ocorreu aqui no Brasil, pois fomos um dos que tomaram empréstimos do FMI e, portanto, fomos um dos que enriqueceram EUA, Europa e Japão, e não tivemos, ainda, expansão comercial econômica para reverter esse processo, mas muita coisa melhorou e vai melhorar com o Banco dos Brics, que fará para nós, China, Índia, Russia e Africa do Sul, o que o FMI fez para Europa-EUA-Japão, sem intervir nas economias dos países tomadores de empréstimos nossos, claro. Mas enquanto isso não é feito, percebam, há um sistema internacional que gera um dreno de valores para as nações ricas, por competência econômica e política delas, e prejudicam os países médios e pobres, por incompetência política e econômica nossa. A reversão disso não pode se dar somente por mera abertura comercial, pois EUA-Europa-Japão só querem abrir os setores em que são fortes e não abrir o mercado deles ao que nossa economia é forte e, assim, poderia levar à queda de alguns setores nacionais lá. A inserção internacional do Brasil deve ser autônoma.

Assim, aproveitando o que se pode deste vídeo, com todo o respeito, e partindo para a resposta de o que está errado, digo: precisamos de reforma tributária, políticas de valorização do salário mínimo e de melhoria de prestação de serviços públicos, pois gera economia ao cidadão e garante serviço pelo imposto pago. Precisamos também de investimentos fortes na área de logística e infraestrutura, e precisamos incentivar a produção, crescimento econômico e exportação de nossos serviços e indústrias para que mais empregos, salários e riqueza integrem nossa economia e aumente a oferta de capital em nossa economia, para que as taxas de juros básica e de mercado baixem. Tudo isso geraria a nossa aproximação ao nível de vida americano.. e de forma autônoma e brasileira e não subserviente e dependente dos americanos ou europeus.

Parabéns ao repórter pelo trabalho e por levantar a questão! A forma como fez o vídeo não me pareceu meramente americanófila ou papagaio-de-pirata. Esse vídeo me deu a impressão de um brasileiro ver que lá aparentemente está melhor e querer que aqui fique igual. Muito bom. É desejo legítimo que nós do Blog Perspectiva Crítica pretendemos ajudar a tornar concreto.

Acessem: www.perspectivacritica.com.br e pesquisem por corrupção, administração pública, economia, bolha imobiliária, economia, serviço público, carga tributária e vocês, juntamente com nosso repórter desse vídeo, terão muitas idéias interessantes sobre o Brasil e, quiçá, muitas respostas.

Abraços brasileiros,

Mário César Pacheco"

Isso é uma interlocução positiva, pessoal. Brasileiros lá e aqui querendo entender. Se todos tiverem comprometimento com o País e boa-fé em suas intervenções, nós podemos, sim, viver como alemães, franceses e suecos. Não como americanos, me desculpem, porque não quero psicopatas em nossa sociedade criados pela persecução dos parâmetros winner-loser e nem licença maternidade de três meses sem salário; muito menos um sistema de saúde que abandona pobres, miseráveis e desempregados. 

Grande abraço.

p.s.: sobre o parâmetro winner-loser, procura o artigo do Blog intitulado "Parâmetros sócio-culturais comportamentais brasileiros e americanos".

p.s de 22/04/2015 - O que mais pode nos aproximar do tipo de vida nos EUA? Não dá para ser detalhado aqui, mas pelos nossos estudos e análises, as medidas são: (a) a continuidade de política de valorização de salário mínimo, dentro de parâmetros sustentáveis, (b) estudo, desenvolvimento e execução de políticas sustentáveis de subsídios à produção de vários setores no Brasil, comparando com os subsídios de mais de 300 bilhões de dólares que são executados na Europa, EUA e Japão, (c) regulamentação do imposto sobre grandes fortunas ou aumento do imposto sobre heranças (aqui é de 4%) para nos aproximar do que ocorre nos EUA (até 77%) e na Europa (Alemanha pratica 40%) como incentivo ao mercado de seguros de vida e criação de fundações por multimilionários no Brasil, como ocorre nos EUA. Por multimilionários como Bill Gates terem de recolher 77% de sua herança para o Fisco Americano, ele, como todos os milionários americanos, fazem seguro de vida no valor do que pagarão de imposto para que suas famílias recebam do seguro o dinehiro que o Fisco tomará da herança. E eles também criam fundações, cujo valor não vai para o Fisco, e ao mesmo tempo em que criam uma "empresa" da qual seus parentes retirarão pro-labores, giram a economia com uma fundação exercendo atividade produtiva em sociedade. O IGF no Brasil pode tirar o dinheiro do mutilionário do banco para fazer girar a econmia sem prejudicar o patrimônio do multimilionário ou seus familiares. Ainda deve se verificar (d) a relação existente entre carga tributária dos países da OCDE em relação aos serviços públicos disponíveis às suas populações, para vermos o que os cidadãos europeus e americanos economizam por terem como serviço público rpestado, (e) deve haver estudo sobre a comparação entre custo de serviço público de saúde e o PIB alemão e brasileiro, custos de serviço público de educação entre europeus, americanos e brasileiros, bem como (f) análise de custo/benefício de todas as atividades públicas para a economia e para a sociedade, sempre comparando com Europeus, americanos e o Brasil. Se isso fosse feito, veríamos que todos os ricos têm mais servidores públicos por habitante do que o Brasil, o que torna o governo e o serviço público mais eficiente, beneficiando o mercado de trabalho, a produção, aliviando custos da vida do cidadão (como plano de saúde e escola) e ainda criando um ambiente de negócios melhor para as empresas. 

p.s. 2 de 22/04/2015 - Texto revisado e corrigido, inclusive o transcrito e o post script acima. 
p.s. de 19/05/2015 - Importante salientar que algo que contribui para os bens e serviços também serem mais acessíveis nso EUA é o fato de no Brasil os lucros praticados pelos empresários serem até três vezes maior do que os praticados naqueles mercados por unidade vendida. Esse é o índice de lucro das nossas concessionáras de carros, por exemplo. Então não é só Custo Brasil externo às empresas e derivado de falta de logística e/ou impostos altos. Esse tema sensível e nunca comentado pela grande mídia é importante. Além disso, o empresariado brasileiro é diferente do europeu e americano. Enquanto lá o cliente é mais importante do que o bem vendido, aqui o bem é melhor tratado do que o cliente. Você que pode comprá-lo é um "beneficiado" pela loja que te vende, enquanto lá o cliente é o mais importante. Lá a empresa visa ampliar market share, ou seja, participação no mercado, enquanto aqui o empresário quer simplesmente lucrar o máximo por unidade vendida, independente do market share que atinja. Isso é diferente. Lá, portanto, o mercado funciona melhor do que aqui, porque lá, se o vendedor perde market share ele se preocupa (visão e compromisso de logo prazo com a atividade da empresa), enquanto que aqui a preocupação é mais com o lucro imediato, inclusive não estando fora das opções à queda de lucro fechar a empresa. No Brasil o empresário prefere fechar a empresa a baixar o lucro para ampliar market share. Esse raciocínio prejudica o sistema do livre mercado em sua essência e isto nunca é abordado em mídia alguma, pois elas publicam na ótica do empresário e banqueiros e tal informação os expõe para a sociedade. Mas essa característica do empresário e mercado brasileiro também dificulta que haja transferência para o consumidor dos benefícios integrais de concorrência no mercado brasileiro e deveria ser exposto para ser consertado isso em nossa economia.

3 comentários:

  1. Parabéns pelo texto!

    Enquanto fui lendo a sua resposta, cheguei ao 5º parágrafo, neste você tratava da industrialização e desenvolvimento americano, então pensei, não, a grande jogada foi a política que alterou o padrão monetário e a criação do FMI, lastreando a economia em dólar, e, logo no 6º parágrafo você abordou o assunto. Muito bom!

    FMI vs BRICS

    A grande sacada a política norte americana e seus economista, foi observar a estratégia da Alemanha nazista e se apropriar de todo o ouro de seus inimigos, neste caso, os hegemônicos não eram afortunados destes minerais, assim, discutido a limitação pelo padrão das reservas dos países. Observando a grande necessidade da reconstrução do mundo destruído, criado o sistema monetário ("money") objetivando o financiamento pela oferta de bens e serviços. A adoção do padrão "dolar", com a crição do FMI em 1945, logo apóis o fim da guerra, fez dos EUA o maior emissor de títulos sob forma de papel moeda. Cada nota de dólar é um título da dívida americana, Assim, o mesmo sistema fez aquele país o maior devedor mundial.

    Naquela época, isso parecia promissor, mas, hoje, o que lhe parece? Você já respondeu parte disso no texto.

    Contudo, inclusive, cabe a discussão sobre o "Risco País" tão discuto pelo economistas mundiais e os últimos vencedores do "Nobel". A necessidade dessa discussão é demonstrada com o grande reflexo da crise mundial de 2008, visto que um problema de financiamento interno dos EUA surtiu efeitos na economia mundial até os dias de hoje.

    Há uma grande tensão sobre o abandono do atual padrão, a recusa do sistema administrado pelo FMI por muitos países. A criação de novos padrões como o EEUU, acordos bilaterais e o Banco dos BRICS. Esse último visto como grande ameaça, como a alforria do terceiro mundo.

    Pergunto-lhe:

    "Se o mundo promover a liquidação dos títulos da dívida americana, ou seja, devolvendo cada dólar a pátria em troca de produção e serviço, teriam eles como pagar essa dívida?"

    Qual é o Risco EUA?

    Boa parte da produção daquele país está terceirizada noutro país que é sede do Banco que subsidiará a economia dos BRICS. Será que dá para entender a complexidade da ameaça?

    Abraços!

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  2. Esse é o fio da navalha que a grande mídia sequer ousa mencionar. Nõa há uma linha sobre as questões internacionais sensíveis à atual ordem mundial com EUA-Europa-Japão no centro do sistema. Não há qualquer comentário sobre a crise do petróleo, sobre grande parte de econmistas renomados europeus e americanos condenarem a política de austeridade na Europa, sobre simplesmente os EUA terem risco país efetivo gigantesco porque sua dívida é superior a seu pib de 16 trilhões de dólares e ainda ser deficitário na balança comercial, o que a grande mídia produz aqui é a mera reprodução da notícia sob prisma deste centro financeiro internacional europeu, americano e japonês, instalado desde o fim da segunda guerra.
    A primeira resposta à sua pergunta é fácil e vocÊ sabe, mas para os leitores que não sabem do tema eu finormo: quebraria os EUA.
    A segunda resposta: o risco-país dos EUA é altíssimo, sustentado pelo fato de todas as atividades de comércio exterior serem feitas em dólar, o que garante demanda para a moeda e sua força internacional. Onde o Brics entrar e á medida em que o d´´olar for saindo de transações internacionais, a demanda por dólar vai diminuir, sua força diminui, a sustentação monetária americana ficará em risco. Mas ser o centro financeiro e produtivo do mundo ainda blinda os EUA, e o financiamento dos BRICS pode diminuir essa blindagem, ampliando a concorrência da base produtiva dos BRICS com a dos EUA... a mudança dessa base de produção pode tirar o lastro, mais uma vez, do dólar.. enfim.. o banco dos BRICS é a maior ameaça ao sistema atual de hegemonia dos EUA-Europa-Japão. Nada se comparar a isso. E não sai uma linha sobre isso em jornais de grande circulação.
    E quanto à terceira pergunta.. devo até dizer que não, não é sequer possível prever e entender toda a complexidade da ameaça do banco dos Brics funcionando a todo vapor. Seria a alteração profunda de tudo o que vemos hoje, com a vanbtagem de que os BRICS, ao menos, também são, na verdade, capitalistas, o que mantém ao menos alguma previsibilidade sobre a manutenção do sistema de produção e sobre parâmetros vigentes e a vigerem nesse novo sistema: investimentos e produção não estariam ameaçados; somente os donos do pib mundial mudariam seus percentuais, com perda para os EUA-Europa-Japão em benefício de Brasil-China-Indía-Rússia-África do Sul.
    Mas ninguém verá isso publicado ou analisado por jornal da grande mídia no Brasil, porque esse tipo de abordagem não replica o status quo. É a não autonomia de nossa grande mídia.

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  3. Bem não sei,só sei que viver no EUA e muito melhor que no Brasil.

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